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Duas décadas aprendendo a ver o lado bom de tudo

Por: Walter Garrote
Fotos: Arquivo Pessoal
Publicado em: 10/2006

Quando penso em escrever sobre skate, várias coisas me vêm à cabeça. Tenho vontade de falar das minhas experiências e do que aprendi e continuo aprendendo toda vez que ando de skate. O mais importante, contudo, não são as coisas que fiz, mas o que vem por aí.

Pertenço a uma geração que presenciou muitas mudanças no país, e isso não foi diferente no skate. Meu irmão é dez anos mais velho do que eu e, às vezes, me lembro de umas cenas no quintal de casa, flashes de memória de quando ele tinha um Torlay, daqueles de acrílico transparente. Poderia dizer que esse foi meu primeiro contato com o carrinho, mas demorou para que eu realmente andasse de skate. Muito tempo depois disso, já em meados dos anos 80, estava na aula de educação física, quando um aluno apareceu com um skate. Era um board americano, daqueles que um leigo comprava no supermercado gringo e trazia pro Brasil, achando que sabia tudo de skate. Pra mim aquilo era completamente novo, não tinha nenhuma relação com o modelo citado acima. Esse skate tinha proteção em todos os lugares, noseguard, safe tail, graber, lapers, pivots, pads, coopers, era uma coisa meio cibernética, sei lá, difícil definir... Mas lembro do cara deslizando no chão da quadra. Imediatamente quis experimentar aquilo, mas ele não queria emprestar. Depois de muita insistência, consegui subir e dar umas remadas… Chão! Na primeira vez já sabia que cair era parte integrante da atividade.

Alguns meses depois rolou a inauguração de uma loja perto de casa (Fronday); era uma surf shop, mas em seu quintal, os caras colocaram um half pipe de madeira. No dia da abertura, rolou uma demo com vários skatistas. Lembro de ver o Negão, o Salada, o Rotatori e o Daniel Burqui e outros caras dixavarem a rampa. Foi animal! Dali pra frente o skate seria um objetivo na minha vida. Mas nem sempre as coisas acontecem como a gente idealiza, e pouco tempo depois estava embarcando em um ônibus para estudar num colégio interno.

No caminho para Mairiporã, cidade da grande São Paulo, onde ficava a escola, conheci meus novos colegas: meninos e meninas que faziam parte do internato. Não mais que 20 crianças, dentro de uma escola gigante com outros alunos que estudavam em horário normal (das 8h às 12h). Em poucos dias já estava enturmado e, lógico, todos os meus colegas também viviam a onda do skate daquela década. O skate era PROIBIDO nas dependências da escola, mas todo moleque sabe como transgredir regras, apesar de não avaliar os riscos e as conseqüências. O primeiro ano só deu pra andar escondido, atrás do prédio de dormitórios.

Quando estreou o Grito da Rua, na TV Gazeta, todo sábado à tarde, a revolução estava chegando ao seu auge. Naquele ano decidi romper com a proibição e fui falar com a diretora geral. Dona Maria tinha fama de ser uma mulher dura, conservadora, mas inteligente e compreensiva. Não foi difícil explicar que andar de skate é uma coisa positiva, que não havia nada de errado em um grupo de alunos se divertirem andando na escola. A proibição caiu e podíamos desfilar com nossos skates e andar onde a gente quisesse… Além da quadra coberta, com chão de madeira e uma arquibancada revestida com tacos, a gente desmontava a trave do gol e usava como ferro pra treinar rockslide e fifties. Se isso não era o bastante, a escola tinha dezenas de ladeiras asfaltadas (toscamente) e outras quadras e gaps que usamos pra andar muito.

Nos finais de semana, eu e meus colegas íamos para São Bernardo do Campo, um paraíso naquela época. A primeira vez que cheguei na pista, sem exagero, devia ter umas mil pessoas andando. “Olha o banks”, “O cotovelo”, “Ó o carving”! Era muito style, cada um desses gritos era encabeçado por um cara e, atrás dele vinha uma renca de 10 ou 20 moleques que se matavam saltando o cotovelo, fazendo a curva na parte rasa da pista velha, e uma galera que se atirava no snake pra fazer a curva lá embaixo e voltar com velocidade até o cotovelo. Nem sempre dava certo. Com tanta gente, sempre aparecia um cara, ou um skate no lugar errado.

Os anos 90 chegaram e uma mudança gigante me levou pra Guarulhos, em São Paulo. Lá eu tinha que estudar à noite e trabalhar de dia, e o skate perdeu muito de seu espaço na minha vida. Foram anos difíceis em que estava em busca de uma identidade. Hoje me arrependo de não ter insistido no skate. Muitas pessoas que conheci passaram por situação semelhante, e continuaram com o skate debaixo dos pés alcançando seus objetivos.

Meus caminhos deram voltas enormes, mas no final cheguei onde havia planejado no começo. Junto com Jonas Furtado, criamos o projeto de uma revista de skate. Com Charles Franco, lancei a Skate Jam, e daí veio o convite para a gente fazer a SKT. Lá, durante dois anos coloquei em prática o que aprendi em todas as redações que passei. Não fiz faculdade de jornalismo, mas me formei jornalista nas revistas em que trabalhei durante quase dez anos. Acertei algumas vezes, errei várias, mas como bom skatista, sei que o importante não é valorizar o tombo, e sim o acerto. A gente vibra mesmo quando aprende uma manobra nova, quando acerta algo que estamos tentando há muito tempo. Aprendi isso andando de skate e não conheço nada que ensine a valorizar o caminho percorrido como o skate. Nada que mostre como cada indivíduo tem valor no todo e o verdadeiro valor das amizades.

Skate pra mim é tudo.

* Walter Garrote tem 32 anos e 21 de skate. Foi editor da revista SKT, dirigiu o projeto SKT na Estrada e a Revista Skate Jam. Trabalhou na redação da revista Fluir.
 
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