publicidade:
Email:
Senha:
O espírito do f***-se

Por: Pedro Henrique Carvalho
Fotos: Arquivo Pessoal
Publicado em: 04/2007

“Ah não, Alemão! Lobão a gente até agüenta, mas Marina, antes do surfe, não dá!”, reclama Barba, do banco de trás.

- Meu amor se você foooor emboraaaaaaa...

“Cara, esse som é louco, se liga na batida”, devolve Alemão, sabendo que a música não importa. Mesmo que alguém inventasse de ouvir o último sucesso do Cansei de Ser Sexy, o bom-humor continuaria a imperar. Impossível fazer cara feia quando o sol nasce e você está a caminho da praia, vendo se desmanchar a neblina que a noite se depositou na Serra do Mar, nas encostas agora tingidas de laranja. Privilégio que só pode ser mais escandaloso se acontecer em plena terça-feira de manhã.

Isso mesmo. Bate-volta relâmpago para o Guarujá no meio da semana. Por que não? Os sites de previsão de onda estão há dias entoando o canto da sereia. Eu só entro no trabalho às onze. Alemão, produtor musical, não cultiva o hábito de pegar no pesado logo cedo (e tem muito bom gosto, apesar da trilha sonora duvidosa desta manhã). Magrão deu o cano, inventou uma desculpa boa para o patrão. Barba, colega do futebol, professor sem aula hoje, é o dono da quarta prancha amarrada no teto do meu Palio chumbo.

O combinado é voltar às nove. Insisto: nove significa nove! Se não estiver no carro às nove, volta de ônibus! – com aquele tom chato que só verdadeiros amigos cultivam.

E lá estava eu, deixando para trás paulistas atarefados, rindo com amigos tão bons quanto um bom amigo pode ser, estacionando em Pitangueiras, onde... adivinha? Séries de um metro e meio abriam para os dois lados, num início de manhã já morno e sem o menor sinal de vento. O mar, é verdade, cheio de cabeças como de costume. Mas era uma visão que valia um enorme sorriso.

O surfe estava fantástico. Porém nos intervalos entre uma onda perfeita e outra um pouco melhor, era inevitável o pensamento perturbador: daqui a pouco, seremos obrigados a nos mandar daqui! Odioso sistema capitalista escravocrata que a gente tanto ama! Vou passar esta mesma tarde, quando ondas douradas estarão quebrando nesta mesma praia, sentado em frente a um monitor cinza de 17 polegadas que costuma travar a cada duas horas.

Ou não?

O espírito do foda-se está sempre rondando as almas inquietas. Fica na espreita. Quanto mais você envelhece, menos se manifesta. Mas nunca deixa de existir, com suas sugestões impertinentes. E aí, colega? Vamos cometer uma pequena rebeldia corporativa para pegar ondas que, sabemos bem, não aparecem toda hora? A moral sacrificada no emprego pode ser tão importante? No fim das contas, quando tudo passar, o que vai render uma história melhor para contar na cadeira de balanço?
O sol já estava quase dois palmos acima do horizonte. Digo, dois palmos medidos no final do comprimento do meu braço - não que essa fosse a distância real entre o horizonte e o sol, como você espertamente já imaginava. Mas o que importa é que o sol estava alto e era melhor perguntar as horas.

- Nove em ponto – respondeu um desconhecido.

Humm. Nove horas. O que a gente tinha combinado, mesmo? Mordi os lábios, passei a mão aflita sobre a barba que começava a formar uma lixa no meu rosto e, em busca de uma resposta, mirei o horizonte. A resposta surgiu como uma parede de água verde-canário enviada exclusivamente para mim, com carimbo do remetente “Netuno” e tudo. Ela foi me levando, levando... e quando terminou, virei o bico da prancha e remei de volta para o oceano.

- Paraísos artifiiiiicia-ais...

Mas essa não é a história de um menino crescido que resolveu contar, com disfarçado orgulho, uma travessura feita em prol do surfe. Não. É antes a crônica da batalha entre a desobediência e a disciplina; da força esmagadora da consciência ante o desejo.

- E aí, brother? Tá na hora. Vamos subir?
- Vambora, Alemão.

Vitória da razão. Na onda seguinte, saí do mar com o leash entre as pernas e fui trabalhar. A disciplina talvez seja a liberdade suprema. E a liberdade total pode ser a pior prisão. Se você fizer sempre tudo o que der na telha, vira escravo da ansiedade e da impulsividade. Por outro lado, há um certo ponto da vida onde a miserável labuta cotidiana tem gosto de plenitude, independência... liberdade.

Mas o espírito do foda-se nunca desiste. Seria mesmo esta baboseira filosófica, ou você saiu da água por mera covardia? Será que este apego à responsabilidade não é a boa e velha acomodação? “Sei não”, respondo ao fantasma. Mas ter quebrado a rotina da semana com uma manhã de ótimo surfe já foi uma dose satisfatória de zoeira. E não fui tão caxias assim, senhor espírito das trevas. Aquela hesitação no mar me fez chegar quarenta minutos atrasado ao trabalho. Maior cara de pau. Para não falar da pele bronzeada. E o sorriso, então?

 

* Pedro Henrique Carvalho tem 26 anos, pratica surfe, skate e snowboard
(e jornalismo, nas horas vagas).

 
envie para um amigo imprima já adicione aos favoritos
:: Últimas colunas

Pedro Henrique Carvalho - A versão para surfista do mito da perfeição
Pedro Henrique Carvalho - Dez vídeos imperdíveis de surf no Youtube para surfistas da rede e das ondas
Felipe Motta - Dicas do melhor snowboarder brasileiro sobre como começar a praticar o esporte
A tartaruga-junkie - Presença tão certa nas ondas de Pitangueiras quanto a molecada do Morro do Maluf
Pedro Henrique Carvalho - O californian dream, depois de seis meses filmando um documentário sobre snowboard
• Felipe Motta - O street do skate reinterpretado pelos snowboarders

» Veja a lista completa de colunas
Você já utilizou os classificados do BoardSports?
Sim, já pesquisei anúncios e enviei propostas.
Sim, já pesquisei anúncios e anunciei alguma coisa.
Sim, enviei meu(s) anúncio(s) mas nunca me enviaram propostas.
Já fechei negócio pelos classificados do BS.
Não, nunca utilizei o serviço de classificados.
votar - ver resultados
Receber newsletter

 
Logo Pulso Comunicação
 
 

 
Fluir - Mensal
6 meses 6 edições

Skateboarder - Mensal
6 meses 6 edições

Thrasher - Mensal
6 meses 6 edições

Surfer - Mensal
6 meses 6 edições

Surfing - Mensal
6 meses 6 edições
» Faça seu anúncio no BS