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Quando cheguei, era noite

Por: Pedro Henrique Carvalho
Foto: Arquivo Pessoal
Publicado em: 05/2007

 

Eu estava há seis meses bem longe (e bem acima) de qualquer onda do planeta, filmando um documentário sobre snowboard no Colorado, EUA. Quando o inverno acabou, deixei as montanhas para trás, cruzei o deserto de Mojave, dirigi, dirigi, dirigi e enfim estacionei em Ocean Beach, louco para cair na água. Louco para fazer meu primeiro surfe na Califórnia – o assunto desta crônica. Mas aí, quando cheguei, já era noite.

Uma noite abafada e úmida, com maresia no ar. Uma noite que duraria centenas de longos minutos. Mas depois de tantos anos imaginando esse momento, algumas horas a mais não iriam me matar.

Antes de seguir narrando minha primeira vez com essa gatona chamada Califórnia, voltemos no tempo. Tudo naquele lugar, aliás, tem a ver com lembranças, reminiscência, páginas de revistas da minha infância. As fotos douradas de Black’s ao pôr-do-sol em alguma edição da Surfer. O quebra-pau de Huntington Beach, em 1986. As performances de Tom Curren em Trestles ou Rincón. O nascimento do skate vertical no solo sagrado de Dogtown. As bandas, as roupas, o estilo.

Quando pequeno, bem novinho mesmo, naquela confusa consciência infantil, eu achava que Estados Unidos era o mesmo lugar que Rio de Janeiro. Sabe essas coisas de criança? Um dia, no apartamento do meu tio no Guarujá, estava vendo as figuras de uma revista de surf quando surge, em página dupla, uma onda imensa, quase engolindo o surfista.

- Mãe, onde tem essa onda?
- Deixa ver na legenda... Humm, na Califórnia, meu filho.
- A gente pode ir na Califórnia?
- Pode, mas fica meio longe, láááá nos Estados Unidos.
- Junto com o Rio de Janeiro?

Califórnia, desde sempre, era mito (desculpe-me ser o milionésimo idiota a dizer isso). Durante a adolescência vi amigos indo para lá, voltando de lá, contando histórias sobre lá.

Meu deslumbramento só tinha aumentado durante o tempo que passei nas Rochosas, filmando snowboard. Seis meses sem surfar foi quase uma penitência, um celibato desportivo. Descer encostas congeladas era divertido. Mas cada vez que eu aplicava uma rasgada num monte de neve fofa, na verdade “enxergava” a crista verde claro de uma onda que não parava de quebrar na praia da minha imaginação. “You’re not snowboarding. You’re surfing on the snow”, gritava um amigo, a voz quase se dissolvendo no vento das altitudes.

Quando descia de volta à cidade, corria às bancas para regar minha árvore de sonhos. Revistas gringas de surfe transbordam californian dream. A maioria é feita lá, inclusive. Vejo uma reportagem sobre um pico secreto em Santa Cruz. E uma foto incrível de um cara acelerando numa esquerda que quebra embaixo da ponte Golden Gate, em San Francisco. Mais algumas semanas e eu colocaria tudo no carro e partiria rumo ao oeste. Ao mito.

Mito. Naquela noite de brisa quente e salgada, quando encostei em Ocean Beach, sentia a euforia de um garotão esperando a Vera Fisher para jantar. Talvez a ansiedade tivesse me impedido de dormir, não fossem técnicas jamaicanas milenares de meditação que costumam acalmar surfistas nessas horas.

Como queria cair cedo no mar, tinha que procurar uma amiga que morava lá e pegar uma prancha emprestada. Encontrei Michelle num condomínio com blocos de dois andares e escadas pelo lado de fora. Queimada de sol, bonita, disse com naturalidade e sem desconfiar do estremecimento que a frase me causava: “Amanhã vai ter um metro, pode pegar aquela ali”. Saí com um foguete novinho – já não lembro a marca – embaixo do braço e tentando, sem sucesso, controlar o riso besta.

Na calçada, virei e gritei:
- Roupa de borracha você não tem, né?
- Não, para homem não. Mas amanhã cedo você compra uma. Em Ocean Beach tem um monte de lojinhas em frente à praia.

Vai funcionar, pensei.

Preciso dizer que estava de pé antes do sol? Na verdade, o sol nem daria as caras naquela manhã. O dia despertou mal-humorado, nublado, londrino. Joguei a prancha no carro enquanto engolia qualquer coisa para garantir energia nas muitas horas que pretendia passar no mar. Antes de sair, lembrei de pegar o cartão de crédito. Tinha uma wetsuit para comprar. As famosas ondas da Califórnia são famosas também por serem geladas.

Eram sete da manhã quando o vi pela primeira vez. Ele, o cinzento e monumental Pacífico. Mas não vou dizer que fiquei contemplando sua imensidão, ou enchendo os pulmões com sua brisa salgada, ou admirando os reflexos trepidantes na superfície. Fui logo reparando naquilo que interessava. E pelo jeito minha amiga andava bem informada. Um metro, formação razoável, ninguém na água. Às vezes uma série maior entrava e os cocurutos estouravam na laje do lendário píer de OB.

Por um momento pensei no povo egípcio e na recompensa que tiveram depois da provação no deserto. Mojave me conduzira à Califórnia. Eu era meu próprio Moisés! A prancha, meu cajado! Mas faltava alguma coisa. Sim, claro, faltavam minhas vestes bíblicas à prova de frio.
Dei meia volta e segui para a primeira loja. Fechada. Tinha um cartaz: “Opens at 9am”. Humm, sei. A próxima deve estar aberta. Não. Estava fechada. E também abriria às 9 da manhã. Assim como a terceira, a quarta e as demais. Meu Deus! Mais duas horas esperando? Vendo o mar encher de gente e o vento possivelmente aparecer e estragar as ondas? Não, meu coração não poderia resistir a tanto.

Então lá estava eu: pé na areia, alongando os braços, com a prancha fincada ao meu lado. E de bermuda. Um gringo passou por mim. Tinha uma prancha amarela e usava long john com botinha e capuz. Olhou o brazuca aqui com um misto de curiosidade e pena. Admiração, talvez. Vamos lá, coragem.

Submergi bravamente até a canela. Fria. Muito fria. Melhor mergulhar de uma vez. Depois de morar cinco anos em Florianópolis, eu achava que já tinha visto de tudo quando se trata de frio. Estava tão errado quanto o cara que chamou o Titanic de imbatível. Mas nada que, algumas caretas e xingamentos depois, o corpo não se acostume.

E havia um calor envolvido. Vinha do centro do meu corpo, e eu achava que era empolgação, ímpeto. Mas era calor mesmo. Um calor puramente emocional, contudo posso apostar que se alguém tivesse um termômetro iria descobrir que havia calor sendo gerado. Calor físico, força estranha que fazia com que eu surfasse não apenas mais aquecido, mas principalmente mais radiante.

Encontrei ondas fortes, boas. Começavam lá atrás e abriam, mesmo quando meio tortas. Depois era só voltar remando junto do píer, onde se formava um canal. Os poucos companheiros que boiavam no outside trocavam olhares amistosos comigo. “Coisa de país civilizado”, pensei. Para quem ficou parado meio ano, até que surfei bem – acho que graças ao snowboard, que ajuda muito na projeção do corpo para as manobras. Quando bateu nove horas, saí da água feito um pingüim e corri para uma loja da Sunset Boulevard, onde entrei molhado e com um cartão de crédito na mão. Arrematei uma roupa de borracha da Rip Curl por US$ 80 e voltei para o mar. Foram várias quedas naquele dia. Fiquei na praia até o emblemático instante em que o sol toca o Pacífico, tinge tudo de vermelho e faz você pensar: é, era aqui mesmo.

 

* Pedro Henrique Carvalho tem 26 anos, pratica surfe, skate e snowboard
(e jornalismo, nas horas vagas).

 
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