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A tartaruga-junkie

Por: Pedro Henrique Carvalho
Fotos: Arquivo Pessoal
Publicado em: 07/2007

Presença tão certa nas ondas de Pitangueiras quanto a molecada do Morro do Maluf é a tartaruga-junkie do Guarujá. Pobre bichinha. Se você for surfista e paulista, deve saber de quem estou falando. Ela vive na área. No último ano, encontrei esta representante de uma nova espécie do mundo animal em todas (sem exagero) as sessões de surf que fiz naquelas águas turvas. Glub, sobe, olha, respira, desce, glub. Sucinta, simpática e... suja.

Em suas periscópicas aparições, a maior habituée do canto norte causa sempre um certo rebuliço. Cada vez que aquela cabeça rajada ocre e verde-musgo salta, ninguém fica indiferente. Uns até assustam, mas a tartaruga-junkie não é de meter medo. Fica na dela, não ameaça, não faz cara feia nem xinga ninguém de haule. Há também quem a ignore com aquela pose blasé, estilo tô-nem-aí, já acostumei, feito perua que cruza o ator Gary Oldman no aeroporto e desvia o nariz. Mas os mais esquisitos mesmo – como eu – vêem a bichinha e se põem a refletir. Há algo de podre no reino da fauna marinha.

O que dá na cabeça retrátil de uma tartaruga para morar em Pitangueiras, uma das praias mais sujas do litoral paulista, tendo por aí tanto lugar fresco e agradável para habitar? Nadasse um pouquinho e iria encontrar água verde e comida abundante. Mas, não. A tartaruga-junkie gosta mesmo é da superpopulada Pitangueiras, onde uma muralha de prédios encobriu a Serra do Mar e um fluxo interminável de esgoto tornou marrom a água. Será que ela viciou no gostinho das algas de lá? (Que devem ser o equivalente oceanográfico do churrasco grego de estádio de futebol.) Brincadeiras à parte, o fato é que ela vive ali; e ali se alimenta.

A bichinha se sente à vontade entre os surfistas. Acha que não somos espécie predadora. Percebeu que estamos interessados somente nas ondas que passam, como nuvens, sobre sua cabeça. Por isso fica bem perto. Sinal de outra mutação contra-evolutiva da coitada. Como as pombas das metrópoles, ela perdeu o medo dos humanos. Mas, se entendo alguma coisa desses bípedes traiçoeiros, acho que nossa amiga não deveria dar mole assim. Dia desses alguém faz com ela como fizeram com o golfinho Tião, lembra? O pessoal do litoral norte enfiou tanto palito de sorvete no orifício respiratório dele que um garoto acabou levando uma focinhada e morreu.

Em suma, a réptil está se tornando uma tartaruga de cidade grande. Já vive acostumada com movimento, correria, sujeira. Aposto como acha outras tartarugas umas caipiras. Nada meio apressada, sem perder tempo com pensamentos flutuantes. Anda com alguma gastrite, e talvez esteja consumindo ervas terapêuticas para dormir melhor. Em compensação está sempre por dentro das últimas – pelo menos quando o assunto é moda de bermuda de surfista, decomposição de embalagens de salgadinho, novos modelos de absorvente feminino usado. Sabe como é, cidade grande tem seus males, mas tem suas benesses.

Outro dia eu mergulhei no quintal da cascuda antes das sete da manhã. Ela, claro, estava lá. Um metro nas séries, formação boa, pouca companhia. Fiquei mais de três horas surfando. Perfeito. Tudo perfeito. Mundo harmonioso, não? Tudo certo no reino dos humanos. Nada de podre nas salas de reunião refrigeradas, nada fedendo nas esquinas, nos becos, nas entranhas de nossas cidades sujas; nenhum chorume escorrendo dos palácios de Brasília, dos córregos que drenam favelas. Nada. Uma onda graúda se aproxima. A tartaruga-junkie, cada dia mais contaminada de humanidades, emerge tão perto de mim que pela primeira vez posso reparar em seus olhos mortiços.

*Pedro Henrique Carvalho tem 26 anos, pratica Surf, skate e snowboard (e jornalismo, nas horas vagas)

 
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