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Já era quase noite e nós três ainda estávamos meio molhados e tremelicando de frio na varanda, dando uma última olhada no mar.

- Tava muito bom – suspirei.
- Meu, muito bom – reforçou Alemão, secando
a água do rosto com a palma da mão.
Michelle fez cara de quem ia cortar o barato:
- Eu achei que tava fechando um pouco...
- Meu, você queria o quê? – repliquei – Que não fechasse nunca?
É Guarujá, não Indonésia!


Por: Pedro Henrique Carvalho
Foto: Arquivo Pessoal
Publicado em: 09/2007

Sobre a busca da perfeição

Um dos primeiros caras a colocar lenha nessa fogueira foi Bill Cleary. Em artigos publicados nos anos 60, o editor-associado da revista californiana Surfer falava de ondas verdes e esculturais na então inexplorada costa mexicana, logo ao sul da fronteira. Uma delas, ele insinuantemente batizou de Mexican Malibu. Mas Cleary já prevenia: “Como o El Dorado visto pelo conquistador espanhol ancestral, o tesouro está sempre depois da próxima colina, além da floresta distante”.

Estava criada a versão para surfista do mito da perfeição. Por um lado, ele nos motiva a viajar, a acordar de madrugada, a meter o pé na lama, a examinar mapas costeiros atrás de uma tal direita secreta. Mas por causa dele tem gente que, mesmo naquele mar sensacional, acha sempre que tem um ventinho atrapalhando, uma maré adversa, uma correnteza que não deixa você ficar no lugar certo, um brother fominha... Enfim, nunca está como a onda que ele viu na propaganda da Rip Curl.

Não é à toa que a mais celebrada campanha de marketing dessa marca – a The Search – foi tão bem sucedida. Virou até filme. Ela se apóia no mesmo conceito (ou truque) usado por Bill Cleary na Surfer: não o objeto, mas a busca. Não o palpável, mas o onírico, sempre mais bonito. É uma idéia tão forte que Abraham Lincoln, na Declaração de Independência dos EUA, decretou que todo homem teria direito “à vida, à liberdade e à busca da felicidade”. Ele não disse, veja bem, que a gente poderia ter felicidade, e sim que poderíamos buscá-la.

Cá entre nós, acho isso uma droga. Puxa vida, tem tanta coisa que não é exatamente perfeita, mas é tão legal. Não fosse esse mito tolo, as pessoas curtiriam mais a imperfeição. Tem mulher linda que acha o corpo imperfeito e não consegue relaxar, tem chefe que acha o projeto imperfeito e tesoura justamente aquilo que dava autenticidade à idéia, tem pai que quer educar o filho da maneira mais perfeita e exatamente por isso cria um idiota...

Alejandro González-Iñárritu, diretor do aclamado Babel, disse uma frase com a qual ganhou meu respeito: “Adoro a imperfeição dos meus filmes. É nela que me reconheço”. Imperfeição é personalidade. Se um cara com essa cabeça estivesse surfando um mar meio pequeno, com vento e maré cheia demais, aposto que diria algo como “bom, vamos ver a metade cheia do copo, é melhor estar aqui do que num escritório, não é?”.

Longe de mim ser o pregador do otimismo barato – tampouco do pessimismo. Acho que as coisas devem ser vistas da forma como realmente são, com o máximo de objetividade. Perfeitas ou não. Mas, que a Síndrome da Busca Eterna é um mal moderno, isso é. Naquele fim de tarde na varanda, as ondas lá embaixo estavam excelentes. Longas, fortes, constantes. Mas você podia ignorar tudo isso e reparar só naquelas que fechavam. Talvez até para servir de consolo, caso seu surf não rendesse o esperado: “Pô, tinham várias fechando...”

Vídeo do dia

Buttons Kaluhiokalani, o Tony Tornado do surf, dando aula de estilo no mar


 
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