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foto: Fábio Minduim/ FMA
"No ranking mundial,
estou em 29º no overal."
O NOSSO HOMEM DA NEVE
Aos 28 anos, o número um no ranking brasileiro e o sul-americano melhor colocado pela Federação Internacional de Sky e Snowboard (FIS), em vigésimo nono, Felipe Motta conta ao BoardSports quais os critérios de classificação e fala sobre a sua preparação para a busca de uma vaga nas próximas Olimpíadas de Inverno, que serão realizadas em 2005, na cidade de Turim, Itália

Por: Otávio Ramos
Fotos: Arquivo pessoal
Publicado em: 10/2004

Como está seu posicionamento no ranking brasileiro? E no ranking da Federação Internacional de Sky e Snowboard (FIS)?Para o ranking da Confederação Brasileira de Desportos na Neve, o único evento que conta pontos é o Campeonato Brasileiro de Snowboard. Em 2004, estou em primeiro porque ganhei o campeonato de Big Air. Na FIS que é o ranking mundial, estou colocado em 29º no ranking overal, que combina todas as modalidades. É interessante porque hoje em dia a maioria dos atletas é especializada, compete apenas em uma modalidade. No meu caso, sou especialista em duas modalidades: o boarder cross e o half pipe. Este ano, no campeonato brasileiro, a neve foi insuficiente para o half pipe e, por este motivo, substituíram pela prova de big air. Esta é uma modalidade que eu não pratico com freqüência mas, como as manobras são parecidas, eu consigo boa performance.

 

TREINAMENTO E PREPARAÇÃO QUANDO ESTÁ NO BRASIL

"Por ano, fico de oito a
nove meses na neve."

Para se manter bem preparado como atleta de alto nível, você passa a maior parte do tempo fora do país. Como é a sua preparação quando está no Brasil? Existe algum programa de treinamento fora da neve para o atleta de snowboard?
A preparação específica não tem como ser feita no Brasil, não existe muito milagre para praticar o snowboard de competição. Apesar do esporte requerer um bom condicionamento físico, a preparação técnica é essencial e essa só é possível passando um tempo fora do país, treinando na neve. Aqui no Brasil, por prazer, mas também como auxílio à preparação técnica, eu gosto de fazer vários esportes de prancha. Ando de skate, pego onda e pratico wakeboard. Cada um desses esportes ajuda um pouco para o snow. Nenhum desses é o segredo ou o ideal, mas ajudam. Para a preparação no Brasil, é legal montar um trabalho que se chama cross training. Um treinamento alternativo que incorpora diferentes elementos dos esportes de prancha e eles, inconscientemente, ajudam a manter a forma. Pelo fato de todos serem esportes de prancha, a posição do corpo, sempre de lado, auxilia na busca por uma postura natural em cima da prancha. Outro trabalho que realizo aqui no país é o treinamento em trampolim acrobático, o mesmo que é utilizado nas olimpíadas e mais conhecido como cama elástica. É um trabalho muito legal.

Uma das coisas predominantes no snowboard, principalmente no free style, é o tempo que você passa no ar realizando manobras. O trampolim acrobático ajuda a desenvolver a consciência espacial e o senso acrobático. O interessante é que, quando estou realizando este treino, poucas vezes fico com a prancha no pé simulando o snowboard. Até acontece, mas na maioria das vezes faço acrobacias aéreas para treinar o senso espacial.

"Depois de tanto tempo praticando,
o cérebro já processa
os movimentos institivamente."

E a sua alimentação, como é? Você segue algum programa específico?
Minha alimentação é balanceada por uma preferência pessoal. Não tenho um acompanhamento profissional no sentido de contar calorias e proteínas, mas naturalmente como pouca gordura e pouco açúcar. É uma atitude pessoal.

Quanto tempo você passa fora do país para treinar?
Nos últimos três anos tenho passado seis meses na América do Norte, mais especificamente no Canadá, e outros dois a três meses na América do Sul, no Chile. Por ano, fico de oito a nove meses na neve. Na América do Sul, fui somente uma vez para a Argentina. O Chile é o país onde tenho mais contatos. Os campeonatos têm sido realizados lá e, em termos de organização e apoio ao snowboard, é mais completo.

 

TEMPORADA NO CHILE COM A EQUIPE
OLÍMPICA PERMANENTE DE SNOWBOARD

"Em qualquer esporte é muito importante
ser conhecedor das regras para poder
jogar de acordo com elas."

Como foi a sua última temporada no Chile com a equipe brasileira de snowboard?
Foi uma iniciativa muito legal da Confederação Brasileira de Desportos na Neve – CBDN. O primeiro passo para esta temporada surgiu com a criação da Equipe Olímpica Permanente de Snowboard, há dois anos. Os membros desta equipe são Ricardo Moruzzi, Izabel Clark e eu. Para esta temporada, foi disponibilizado um centro de treinamento para a equipe na América do Sul. Foi alugada uma casa em Farellones, próximo de Vale Nevado – Chile. Recebemos apoio para o deslocamento até o Chile e subsídios para alimentação, foram fornecidos os passes para acesso à montanha e também disponibilizado um treinador para a equipe, o Iván Fuenzalida. A temporada foi super produtiva. Infelizmente tivemos um inverno quente e seco e, por este motivo, com pouca neve. A minha especialidade, o half pipe, não pode ser realizada. Não pude treinar e nem competir, mas passei bastante tempo treinando o boarder cross, coisa que nunca tinha feito. Este foi um treinamento novo para mim. Trouxe bons resultados, apesar de não ter obtido colocações expressivas na Copa do Mundo. Isso ocorreu não pelo meu nível, mas devido ao alto grau de competitividade e preparação dos atletas em geral. Como estamos um ano antes das Olimpíadas de Inverno, a competição esteve num patamar muito mais alto. Mas acho que foi muito válida a experiência e a minha evolução será percebida daqui pra frente.

"A minha meta agora é seguir o
circuito da Copa do Mundo."

Qual o próximo passo para tentar a vaga para as Olimpíadas de Inverno?
Para se obter a vaga para a olimpíada são necessários dois critérios básicos. Um posicionamento entre os 25 melhores em uma etapa da Copa do Mundo mais 120 pontos até o final da temporada. Este posicionamento entre os 25 melhores da Copa do Mundo deixa este campeonato muito importante. A minha meta agora é seguir o circuito da Copa do Mundo. Nos próximos dias 29 e 30 de outubro haverá mais uma etapa em Saas Fee, na Suíça. Para esta etapa, estão previstos o half pipe e o boarder cross, as duas modalidades que sou especialista.

Como está a sua pontuação na temporada para atingir os critérios de classificação para as Olimpíadas de Inverno?
A minha pontuação de boarder cross está em 60 pontos e no half pipe 30. Por falta de neve, não houve a etapa sul-americana do half pipe e não foi possível acumular pontos. A temporada sul-americana é estratégica para uma boa pontuação geral, já que não são todos os europeus que participam.

 

PRÓXIMA ETAPA DA COPA DO MUNDO DE SNOWBOARD

"Gosto de fazer vários esportes
de prancha. Ando de skate,
pego onda e pratico wakeboard"

Qual é o seu cronograma de preparação para a próxima etapa da Copa do Mundo em Saas Fee, na Suíça?
A preparação na neve é fundamental. Para esta etapa, pretendo chegar uma semana antes e ficar treinando com um grupo de norte-americanos com quem tenho contato. Minha busca inicial é estar totalmente confortável em cima da prancha. Acontece que, quando se passam alguns dias sem praticar, é necessária esta readaptação para conseguir o que se chama de “ter a prancha no pé”, ou seja, que ela seja uma continuação do seu corpo.

Numa segunda etapa, passo a focar os detalhes técnicos como posição de corpo, colocação do peso em cima da prancha e pequenos detalhes. É importante para se ter certeza de que quando for acelerar o nível de desempenho na competição não haverá um erro técnico. A sua base estará sólida o suficiente para agüentar o aumento da performance.

Como você se prepara psicologicamente para uma competição?
Não tenho um auxílio psicológico profissional. É difícil explicar, mas a minha atitude é de concentração no evento. Procuro não deixar o stress tomar conta, busco o relaxamento, manter a mente tranqüila porque sei que o que vou fazer durante o evento faz parte da minha bagagem. Segue um pouco da filosofia das artes marciais. Depois de tanto tempo praticando, seu cérebro já processa os movimentos de maneira instintiva.

Para este evento quanto tempo você passa treinando durante o dia?
Alguns dias antes da competição atinge-se o pico da intensidade de treinamento. A prática mostra que, no meu caso, o ideal é uns dois dias antes da competição. Neste período de alta intensidade de treinos, acabo passando de quatro e seis horas em cima da prancha. Muito do snowboard ainda é técnico. A preparação física é possível fazer fora da prancha. Então, é importante se concentrar na técnica e não ficar exausto em cima da prancha, principalmente antes da competição. Antes do evento existe o treino oficial. Nele, o ideal é que você vá com a intenção de conhecer e se adaptar à pista.

"No Brasil, é legal trabalhar um cross
training, que incorpora diferentes
elementos dos esportes de prancha."

Você cria uma série de manobras para participar de uma prova?
Sim, existe esta estratégia, mas ela está ligada diretamente à pista que você vai competir. É legal ir até o local andar algum tempo e lá desenvolver a estratégia e a linha de manobras que serão desenvolvidas. O treino oficial é a hora que se monta a linha e a rotina das manobras que serão executadas. No meu caso, muitas vezes, monto linhas diferentes para cada etapa da competição. Para a etapa classificatória, com duas descidas, geralmente coloco manobras mais fáceis, de execução perfeita, ou mais difíceis de acordo com o nível apresentado pelos outros atletas, analisando sempre a facilidade ou não da classificação. Nas finais eu também posso mudar a linha de manobras e utilizar uma que vá funcionar melhor para aquela competição. Na primeira descida eu arrisco mais, tento manobras mais difíceis. Se arrisquei e deu certo na primeira, na segunda descida eu tento algo ainda melhor. Se a primeira descida não foi tão boa, arriscar ou não a mesma linha vai depender das manobras montadas para a etapa. Se elas são movimentos de total consciência quanto à habilidade de realizá-las, eu tento novamente. Se as manobras são mais difíceis, as quais não acerto todas às vezes, procuro ser mais conservador. Existe sempre uma estratégia. Em qualquer esporte é muito importante ser conhecedor das regras para poder jogar de acordo com elas.

O importante é tentar entender exatamente o que os juízes estão buscando. Às vezes, eles não estão atrás da manobra mais complicada. Acontece muito de estarem observando a aterrissagem mais perfeita, querem ver o seu controle sobre a prancha. Então, não adianta fazer uma manobra miraculosa, mas toda jogada, sem muito sentido de espaço e aterrissagem. Neste caso, é melhor fazer uma manobra mais simples, com total controle sobre a prancha.

 
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